reminiscência

ando com aquela sensação esquisita de quem esqueceu algo.

sabe quando você vem carregando alguma coisa, e de repente não está mais?
E o coração sobressalta quando percebe a ausência, o corpo sua frio.
Uma eletricidade percorre sua espinha e sua mente repassa em segundos seus últimos atos, buscando a segurança da memória de ter deixado em local protegido. Ou pelo menos ter entregue a quem de direito era. Ou vai ver você nem saiu de casa com isso.

Olha em volta.
Refaz o caminho.
Será que deixei cair?

Revira a bolsa, os bolsos...
O coração...

Com o incômodo descoberto, a cabeça relaxa.
Respiro fundo. 
Afinal, é só mais um dia em que eu me lembro que esqueci.


por onde andei?

Sento aqui nesse canto escuro empoeirado que não visito há meses.

O sentimento é confuso, contraditório, sinuoso, desconexo, às vezes.

Desconcertante.
(Como um roupa esquisita que se veste e quando se anda na rua, parece que todos te olham. Mas ninguém te percebe, na verdade. Você que acha que exala incômodo a cada esquina.)

A lembrança viaja, o arrepio da nuca.
Fecho os olhos.
E aquilo me machuca.

Faço uma oração.
Nada me alivia.

Pesado coração
Desejo pungente.
E agora?

Me levanto.
- vou me embora.

Mas atravesso a porta a passos curtos e lentos para me convencer de ir.

a memória é meu único souvenir.


Porque não, não é resposta.

Quando a gente é criança, parece que todos os nossos desejos são justificados.
Criança quer tudo, aponta para tudo, pede tudo.
E se não é atendida, enche o interlocutor de porquês seguidos e de argumentações fantásticas.
Se vencido pelo cansaço ou pela alegação, a criança recebe sua vontade.
Se não, é enganada com outra coisa.

Nesses dias percebo que ser adulto é reprimir desejos com os ecos das negativas recebidas.

Queria ser criança e ter direito aos meus infinitos porquês e poder exprimir minhas argumentações fantásticas e ser vencida pelo cansaço e ser enganada com outra coisa.

Qualquer outra coisa para esquecer.