Batidas na porta da frente, é o tempo...

Ah...o tempo.

O tempo é essa criança correndo na sala, curiosa com tudo. Você tira algo da mão dela, ela pega outra coisa, você se distrai, ela bagunça, você arruma, ela destrói. 
Você procura algo que a entretenha e de alguma forma, descobre. Você acha que é o mestre do tempo.

E então o tempo é o mar em dia de ressaca. No meio do oceano, você não alcança o chão, é calmo, mas cansativo. Boiar é chato, você quer sair. Enquanto se aproxima da margem, as ondas batem, reviram suas pernas como um redemoinho, te puxam pro fundo e você acorda em meio a areia com os pulmões cheios d'água. Foi dolorido, mas você conseguiu. E você acha que superou o tempo.

Mas ele agora é tempestade. Chovendo, ele inunda. Troveja, você conta um e o relâmpago risca o céu de cima abaixo, o barulho assusta. Você caminha com dificuldade com água no joelho, foge das árvores que são cobertura, mas não são abrigo. Uma casa no horizonte, você se desloca naquela direção. Você entra na casa. E você acha que ganhou do tempo.

E o tempo é incêndio. Protegida pelo abrigo, você não percebeu a faísca, ignorou a primeira chama. Sentiu conforto no calor e quando deu por si, o fogo se alastrava pela casa, absorvia suas paredes em altas labaredas, você está longe da porta. Quebra uma janela, corta o braço e cansada, você senta num canto e pede trégua.

O tempo não concede.

Ele te consumiu. 


Procura-se

Às vezes eu me recordo de algo que tive. Um tornozeleira. Eu lembro que sempre estava com ela. E adorava olhar pro meu pé. Mexia de um lado pro outro, olhava no espelho. Não sei quanto tempo passou até eu perceber que eu a tinha perdido.

Perdi? Será que eu dei?
Será que ela quebrou enquanto caminhava? 
Ou será que eu vi e me conformei e minha mente apagou?

Não sei.

Acontece também com livros que eu gostaria de ter. Eu os li mas não lembro se comprei e perdi. Se peguei emprestado. Não sei a quem perguntar. Simplesmente não está ali. Não foi meu? Por onde andará? Emprestei?

Tanto assim é minha experiência com o tempo. Será que o desperdicei? Quando o tive? O quanto tive e quanto me sobrou? Consumi muito ou pouco? Foi significativo ou foi supérfluo? 

Só sei que corro atrás dele e o procuro por toda parte e me culpo enormemente pelo tempo que não sei se perdi.

Disparatada!

A melhor coisa de ser considerada louca é nunca ter que justificar suas atitudes. A atitude é a justificativa. O que se espera de uma pessoa considerada louca. Ora, loucuras! E uma pessoa considerada louca entrega a encomenda: faz doidices, sandices, maluquices...loucuras!

Ninguém pensa em investigar o porquê consideram determinada pessoa louca. É louca, dizem. Como dizem das loiras e das morenas, das altas e das baixas. São. Não se discute. 

E não se demora muito para que a pessoa considerada louca demonstre sua mais marcante característica. De repente, como combustão espontânea a pessoa considerada louca, explode.

Explode em riqueza, alegria, personalidade e originalidade. Só pode ser louca de querer ser assim num mundo tão padronizado e careta!

Louca!